Operação ECO – Uma família 4x4 nas Américas 

 

A Família

       A nossa família é composta pelo pai, Edgard Dias Batista Jr, 50, professor na área de engenharia de produção na UNESP, Faculdade de Engenharia, Campus de Guaratinguetá; pela mãe, Ronilda Maria Antunes Dias Batista, 46, professora (mas atualmente não está dando aula) e os filhos Edgard, 22 e Dino Antunes Dias Batista, 20, ambos técnicos em eletrônica e estudando engenharia elétrica na UNICAMP.

      O hobby principal da família sempre foi viajar, na maioria das vezes todos juntos. Este hobby acabou nos levando para o mal caminho, isto é, à procura do pior caminho, pois acabamos virando jipeiros. Fazemos parte do jipe clube Búfalos do Vale já a uns 7 ou 8 anos, desde que compramos um Willys 74, o Diabo Verde, que ficou na família até o ano passado quando tivemos que vendê-lo para conseguir dinheiro para a viagem. No jipe clube alguns nos chamam de família jipe, pois sempre saímos para fazer trilhas juntos, e muitos não devem acreditar como conseguimos ficar tanto tempo juntos num mesmo carro, pois temos uma certa fama de brigar demais (coisa de descendentes de italianos) porém, do mesmo jeito que as brigas vem, elas vão: sem motivo e muito rápido. Acho que outra característica nossa é a cerveja, todos somos chegados à uma. Bem gelada. 

 


 O carro

      Bom, agora vamos falar um pouco sobre a Chôla, nosso carro. Ela é uma Toyota Hilux cabine dupla 4x4 ano 93, modelo 94. A Chôla recebeu este nome devido às índias andinas, bem típicas, que estão em todo o Andes andando devagarinho e carregando uma baita carga às costas. Teve comportamento de jipe em trilhas e conforto de carro em estradas.

      Bastante difícil foi escolhe-la, pois nosso veículo deveria preencher uma série de requisitos exigidos em uma viagem deste porte. Porém o pior problema era a falta de dinheiro. Estávamos tentando algum patrocínio, principalmente junto às montadoras, o que atrasou bastante na compra do carro pois ainda tínhamos esperança de conseguir algum. Quando percebemos que teríamos que ir por nossa conta e risco começamos realmente a busca do carro, que agora deveria caber no orçamento que já existia. Tínhamos que comprar um 4x4, pois pensávamos em passar por alguns lugares ruins. O diesel era o combustível (preço, consumo, manutenção e robustez). A marca deveria ser a mais internacional possível (a Toyota está presente em todos os países por onde íamos passar, menos o México). 4 adultos e muita bagagem, só uma cabine dupla conseguiria levar (ou o Defender 110, que apesar de ter bastante espaço para bagagem e ser carro inglês, só uma criança consegue ter algum conforto nos bancos de trás). Finalmente, o fator mais importante era a grana.

      Decidido o veículo restava achar uma Hilux que conseguíssemos comprar, Isto nos impôs uma 93 (comprada por anúncio de jornais).Mais ou menos 1 mês e meio antes da partida estávamos com a Chôla na mão, nossa primeira Toyota, nosso primeiro carro importado, nosso primeiro diesel, ar condicionado e direção hidráulica. Nossa primeira trilha com o novo carro? A do trem da morte, entrando na Bolívia, considerada rota de traficantes e ladrões de carro. Um bom começo.

      Em geral o desempenho do carro foi muito bom. É claro que no começo estranhamos um pouco, principalmente pelo fato de ser diesel, que nos dá pouca potência, mas em compensação anda da mesma forma estando carregado (nós mais as bagagens somávamos quase 1 tonelada) ou vazio. Este é um fator importante, pois se quiséssemos um carro que tivesse boa velocidade, como as grandes pickups à gasolina americanas, iríamos ter um consumo na casa dos 4 Km/l (sendo otimista), sendo que tivemos um consumo médio de 8,25 Km/l (foram gastos 6755 litros em um percurso de 55736 Km). Se multiplicarmos isto ao fato de o preço da gasolina ser em geral quase o dobro, teríamos gasto 4 vezes mais em combustível.

      Durante todo o percurso o carro não deu nenhum problema grande. Na verdade tudo o que aconteceu foi que a buzina caiu e o fio do solenóide de corte de combustível deu mal contato. Este problema apesar de simples foi um pouco chato, pois ocorreu quando estávamos no Alaska, e quando o fio perdia contato, o combustível parava de fluir e o resultado era que parecia que tínhamos tirado o pé do acelerador. Como o fio passa em cima do cabo do acelerador, quando bombeávamos o contato era restabelecido, assim tínhamos um problema elétrico, mas os sintomas eram mecânicos. Conseguimos achar o problema depois de algum tempo e algumas tentativas de conserto (como trocar o filtro de diesel e todo o diesel do tanque) e depois de elaborar um monte de teorias sobre o que ocorria. O Edgard (filho) estava debruçado no motor, lamentando nosso azar, quando viu uma faísca que vinha da bomba, mais precisamente do fio do solenóide. Aí foi encapá-lo e seguir viagem.

      Todos nos perguntam dos pneus. Saímos com os pneus radiais que este tipo de veículo recebe na fábrica, mas estes pneus furaram 2 vezes na trilha do trem da morte, e o pior, outro pneu ficou com uma bolha enorme (que quando resolve estourar em alta velocidade...). Aí, em Santa Cruz de La Sierra trocamos todos os 6 pneus por convencionais de 10 lonas da Firestone, capacidade de carga E, 750 x 16 (muito utilizados entre jipeiros, porém o nosso tinha desenho estradeiro). Muito fortes (porém um pouco duros) eles aguentaram bem todos os buracos que pegamos e só tivemos um furo quando eu passei em um pedaço de madeira com um prego de uns 10 cm preso. Na Venezuela, já voltando ao Brasil, resolvemos trocar 4 pneus por lameiros, pois já estavam bem carecas (rodaram uns 50000 Km, realizando rodízio com 2 estepes) e íamos passar pela Amazônia.

      Manutenção na viagem não fizemos nenhuma, apenas troca de óleo, filtros e colocação de graxa. Não é preciso dizer que pegamos muito gosto pela Hilux.

 


A Preparação 

      Em casa sempre tivemos vontade de fazer uma viagem grande, algo para contar para os netos. Mas nunca encarávamos um planejamento sério ou a possibilidade real de sair. Acho que o início da viagem foi quando desistimos de fazer um "up date" nos carros de casa (um Monza 91 e um Escort 89) e também de viajarmos toda a família para os EUA, tudo isso no começo de 97. Aí já havíamos feito algo pela viagem, e começamos a batalhar por ela. Busca de patrocínios (fizemos um projeto de patrocínio), papelada, a compra do carro, a obtenção de vistos, o contato com todos os consulados e o roteiro eram atividades que tínhamos que realizar ao mesmo tempo das rotineiras, somando também o fato do Edgard (filho) e do Dino estarem ligados ao centro acadêmico de nossa faculdade (o Edgard era o presidente). Foi um semestre de muita correria, muito trabalho. Todo o tempo livre era dedicado à viagem, e muitos amigos davam força. Depois de certo tempo muitos conhecidos já sabiam da viagem e nós já havíamos até marcado a data de saída, 16 de julho. O fato de uma data ser estipulada é muito importante, pois como diz o Amir Klink, o grande problema em uma viagem destas é sair. Sem uma data certa corre-se o grande risco de ir adiando a saída (pois é muito difícil estar com tudo 100%) e, simplesmente, não sair.

      15 de julho estávamos com o pé na estrada e a casa nas costas. Resolvemos sair 1 dia antes do planejado pois em casa não tínhamos sossego. Colocamos tudo que achávamos que poderíamos usar dentro e fora do carro e fomos para a casa de meus avós paternos, em Barra Bonita, onde conseguimos eliminar muita coisa e sair com uma bagagem mais soft. Este talvez tenha sido um ponto falho no planejamento. O que levar? É complicado quando não se sabe ao certo o que lhe espera, pois apesar de fazer um roteiro detalhado e estudar muitas matérias e guias sobre os lugares por onde íamos passar não tínhamos certeza de nada. 

 


 O melhor e o pior da viagem

       Uma viagem como a que fizemos não foi turismo, foi aventura. Evidentemente que passamos em lugares lindos e turísticos, também em outros lindos e desconhecidos, além daqueles horríveis e perigosos. O objetivo era chegar ao Alasca e conhecer o máximo pelo caminho. E o desafio era fazer tudo isso por nossa conta, sem patrocínio. Sem grana a pior coisa que pode acontecer é ter que gastar dinheiro em coisas inúteis, como foi na travessia de barco entre a Colômbia e o Panamá e nas inúmeras vezes em que os policiais rodoviários dos países latinos nos "morderam".

      Esse foi o pior da viagem: como nosso orçamento era limitado tínhamos que nos preocupar em não levar multas e nos preocupar em não sofrer nenhum acidente, nenhuma batida, pois mesmo com o seguro com extensão de perímetro cobrindo as 3 Américas não tínhamos certeza se num acidente o seguro ia nos proteger. Também não poderia ocorrer nenhuma doença mais grave, senão o dinheiro acabaria, pois nossas reservas eram contadas.

      Com certeza fazer essa viagem com dinheiro ou patrocínio o "stress" diminui drasticamente, pois chega uma hora onde realmente o pior desafio não é ficar num carro horas e dias seguidos, em estradas ruins em países perigosos e desconhecidos, o desafio é conseguir o dinheiro para passar o mês. Mas o desafio nos levou a um grande êxito, o do planejamento e controle financeiro.

      Outra experiência que nos ensinou muito, mas pode ser considerada uma das coisas ruins da viagem são as fronteiras. "Estressantes", onde normalmente temos que pagar "gorjetas" para passar e onde transitam pessoas de todos os tipos, geralmente do pior dos tipos.

      Portanto duas das coisas piores da viagem foram as fronteiras e a preocupação em não dar nada errado, principalmente por causa do orçamento limitado.

 

     O melhor numa viagem deste tamanho também não é um só item: Conhecemos as culturas dos nossos vizinhos, a situação da América latina que é muito igual a nossa e nós não costumamos nos interessar, o primeiro mundo com parques naturais lindos e protegidos, o camping com frio de -15 graus onde a cerveja não esquenta, a neve, as praias do México com corais e peixes, nadar no meio dos peixes e dos corais, nadar num cenote em Yucatán, os Andes com o Altiplano, as cholas e a "mais" das ruínas pré-colombianas, Machu-Picchu, descobrir que o Brasil é bom demais e tem lugares dos mais lindos, como Bonito, o Pantanal, A Chapada, A Amazônia onde demoramos 2 dias e 700 Kms sem cruzar com nada de povoamento nenhum, só a mata que realmente é imensa, interminável, as cervejas de todos os países, a cerveja num vilarejinho na Bolívia, depois de ter cruzado e encarado um dos maiores desafios que foi a trilha do trem da morte, vencer o desafio dessa trilha, vencer o desafio de passar o carro por mar, num contêiner, da América do Sul para a Central, vencer o desafio de chegar ao Alasca, antes do inverno, as paisagens de "pôster de parede de dentista" no Canadá e Alasca, sair no lucro apostando em Las Vegas, conhecer pessoas incríveis, famílias que nos receberam tão bem como a do Squeaks em Salt Lake City (EUA) e a do David em Monterrey (México), os amigos que fizemos na Califórnia, no Alasca, no México, e em todos os outros países onde sempre tinha alguém que adorava os brasileiros viajantes, convivências de poucos dias e as vezes de poucos minutos, mas que marcaram a viagem e nossas vidas, com certeza, chegar no Brasil, se sentindo em casa no norte de Roraima, falar de novo o português na rua, melhorar o inglês e aprender o espanhol, e chegar em casa, rever os amigos e a família, e sentir que nada mudou, mas sentir que você mudou, aprendeu, e voltou vivo!

 

 

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